Morreram mais GCMs por covid-19 que por combate a crimes no Brasil

 Morreram mais GCMs por covid-19 que por combate a crimes no Brasil

0h31 do dia 23 de abril de 2020.

Esse horário e este dia ficaram marcados para sempre na família França, moradora na Capital Paulista.

Afinal foi neste momento, dia e ano em que o coração de Edson Luiz de França, de 53 anos, parou de bater.


França era subinspetor da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo e morreu por complicações da SARS-CoV-2.

Assim como milhares de agentes de segurança pública, França fazia parte da linha de frente do combate à Covid-19. Atuava nas ruas.

França integrava o Inspetoria Regional de Operações Especiais (IOPE) e quase todas as noite participava de operações.

Era na Cracolândia, abordando moradores em situação de rua, suspeitos envolvidos em crimes, enfim, em seu trabalho ele tinha contato com todo o tipo de pessoa.

Como no início da pandemia as corporações não estavam preparadas para lidar com o enfrentamento da Covid-19, tanto as guardas como policiais militares e civis, tiveram que buscar por conta própria, medidas de segurança pessoais para se protegerem nas ruas.

Pouco antes de ser contaminado, em áudio divulgado no grupo da corporação, o subinspetor chegou a dizer que suspenderia as operações, caso não tivessem equipamentos de proteção individuais (EPI´s) necessários para protegerem os guardas. Apesar da decisão, o tempo foi cruel para França.

“O que mais me revolta é que meu marido se contaminou trabalhando, mas a Secretaria Municipal de Segurança Urbana, nega. Não aceita que foi um acidente de trabalho e se recusa a conceder a indenização que é de direito meu e de meus filhos. Ninguém em casa teve Covid”, desabafou a viúva, a consultora Adriana Maria Stefani de França, de 52 anos.

Registros do Conselho Nacional das Guardas Municipais (GM´s) mostram que desde o início da pandemia no Brasil, em março de 2020, até a terça-feira, dia 16, 137 guardas civis morreram em consequência da Covid-19. A maioria, no estado de São Paulo, com 47 registros.

De acordo com o presidente da entidade, Carlos Alexandre Braga, em média, a cada 36h morre um guarda por Covid no Brasil. Entre o dia 14 e 17 deste mês, cinco GM´s morreram no Estado de São Paulo. Todos na Capital.

França trabalhava na corporação havia 28 anos. Seu turno era das 18h da noite às 6h da manhã, dia sim, dia não.
Apesar de fazer parte do grupo de risco, pois era hipertenso, ele não pode ficar em casa.

Tinha que trabalhar.

“Meu esposo era apaixonado pela profissão. Morreu fazendo o que gostava”, disse Adriana.

França morreu sem saber que estava com Covid-19.

Apesar das dores no corpo, de cabeça, de garganta, tosse e febre, a suspeita era de gripe causada por uma reação a vacina H1N1, que tomava todo ano.

O subinspetor começou a sentir os sintomas na primeira semana de abril.

Buscou ajuda médica por duas vezes, mas recebeu orientação para tomar xarope e antibióticos e aguardar em casa.

Afinal, até então a doença era uma incógnita.

Por duas vezes recebeu atestado médico, mas no dia 22 de abril, França não aguentou.

Sua pressão estava baixa demais.

Tinha febre alta.

Buscou ajuda na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Pirituba, mas não resistiu.

Morreu 7h31 depois de dar entrada na unidade médica.

Apelo para vacina

De acordo com o presidente do Conselho Nacional das Guardas Municipais, Carlos Alexandre Braga, em dezembro do ano passado, a entidade solicitou ao Ministério da Saúde (MS) inclusão dos guardas no Plano Nacional de operacionalização da vacinação contra Covid-19.

Em resposta, o órgão federal informou que “a orientação do PNI ((Programa Nacional de Imunizações) é que se sigam as recomendações do Plano e dos Informes Técnicos da Campanha Nacional de Vacinação contra a covid-19, que direcionam os grupos conforme as distribuições das doses de vacinas disponíveis e as etapas da campanha”, entretanto, segundo Braga, as guardas municipais serão incluídas na 4ª fase da campanha.

“O número de guardas mortos por Covid é maior que as mortes em confronto nos últimos 10 anos. Se não tiver uma vacinação agora, imediata, esses guardas farão falta quando chegar a maioria das vacinas, a vacinação em massa, que serão feitas nos 38 mil postos de vacinação que são municipais”, enfatizou o presidente do Conselho.

“Na minha opinião, as forças de segurança deveriam ser vacinadas junto com os profissionais de saúde, pois elas fazem parte da linha de frente”, acrescentou Braga.

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2019, o Brasil tinha 99.510 guardas municipais em atuação. Somente no estado de São Paulo eram 26.813 agentes.

No Rio de janeiro, 16.010.

Além de contribuir com a segurança pública de diversos municípios brasileiros, os guardas atuam diretamente em locais de maior contaminação, tais como hospitais, postos de saúde, Cemitérios, velórios, prédios municipais e na fiscalização direta das medidas de preservação.

Em nota, o Ministério da Saúde informou que “está trabalhando, sem medir esforços, para que todos os grupos prioritários sejam imunizados contra a covid-19 o mais rápido possível”, e que os profissionais de forças de segurança “sempre estiveram entre os grupos prioritários estipulados pelo Plano de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19”.

“A pasta ressalta a importância desses trabalhadores neste momento de enfrentamento à pandemia. O MS está distribuindo nesta semana mais 4.558.420 milhões de doses da vacina contra a Covid-19 produzida no Brasil pelo Instituto Butantan. O novo lote é destinado para vacinar idosos entre 75 e 79 anos e trabalhadores da saúde. Para os próximos dias, novas remessas estão previstas. A distribuição é feita de forma proporcional e igualitária a todas os estados e Distrito Federal”, citou

“A orientação do MS é para que os gestores de saúde sigam essa ordem estipulada pelo Plano de Vacinação, de acordo com as orientações do PNI. Com a lógica tripartite do Sistema Único de Saúde (SUS), estados e municípios têm autonomia para montar seu próprio esquema de vacinação e dar vazão à fila de acordo com as características de sua população, demandas específicas de cada região e doses disponibilizadas”.

Como a reportagem ilustrou o caso do GM França, da Região Metropolitana de São Paulo, o governo do estado informou que “a destinação de mais vacinas contra Covid-19 pelo Ministério da Saúde é crucial para continuidade da campanha e expansão dos públicos-alvo”.

“Toda estratégia de distribuição das grades e inclusão de novos públicos segue os critérios técnicos definidos pelo PNI e à medida que o Ministério viabiliza novos quantitativos.

O Governo de São Paulo, seguindo a missão de salvar vidas, tem priorizado a imunização justamente dos públicos mais vulneráveis: profissionais de saúde, indígenas, quilombolas, idosos e adultos com deficiência residentes em instituições de longa permanência, além de avançar gradativamente na imunização dos idosos em geral – que representam 77% das vítimas fatais da Covid-19”, frisou em nota.

Ainda conforme a nota, o Estado tem “atuado com agilidade na logística e distribuição para a rede de saúde de SP sempre que recebe novas remessas de vacinas. A execução da campanha, com organização e distribuição de quantitativos na rede de saúde, bem como aplicação das doses na população, é responsabilidade dos municípios”.

A Prefeitura de São Paulo foi procurada pela reportagem, mas não deu retorno.

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