A linha de frente desmorona: do “jeitinho” na garagem ao inquérito das tarifas

Até ontem, a narrativa oficial era de que a licitação de R$ 11 bilhões estava travada na Justiça por meros “detalhes burocráticos” de prazos. Mas o verniz não aguentou o peso dos vídeos brutos gravados dentro da sede da própria Smile Transportes nos dias 6 e 7 de maio. O que era uma crise de imagem virou um salve-se quem puder institucional.

O diretor da Emdec caiu: a reunião secreta de Ricardo Geciauskas

O primeiro grande estrago veio com a queda fulminante de Ricardo Ferraro Geciauskas, diretor financeiro e administrativo da Emdec. Imagens obtidas pela imprensa revelaram que, no dia 6 de maio, Geciauskas fez uma visita de cerca de uma hora, totalmente fora da agenda oficial e (teoricamente) sem qualquer autorização da autarquia, para se reunir a portas fechadas com o empresário Emerson de Jesus na sede da Smile.

A Reação de Emergência: Assim que os questionamentos do jornal chegaram à mesa da prefeitura com os arquivos de vídeo anexados, o pânico foi geral. A reação foi de pânico: o diretor foi exonerado imediatamente, sem abertura de sindicância a princípio. Após uma série de críticas, a Emdec abriu um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para apurar a conduta incompatível do ex-diretor.

A ironia interina: Sabe quem assumiu a cadeira financeira da Emdec interinamente? O próprio presidente da companhia, Vinicius Riverete. Sim, meus caros, o mesmo Vivi que acabou de voltar de Fortaleza discursando sobre “resiliência e força de vontade no Poder Público” agora acumula a função de gerenciar as finanças de uma autarquia cujo braço direito foi pego no flagrante em uma garagem de ônibus envolvida no leilão.

O vídeo do “jeitinho” e o almoço com o cunhado do conselheiro

Se a visita do diretor já era ultrajante, as conversas gravadas no dia seguinte, 7 de maio, no mesmo local, jogaram o processo licitatório de R$ 11 bilhões direto na vala da suspeição. O empresário Emerson de Jesus, peça-central do consórcio vencedor do Lote Norte, foi pego dizendo textualmente a frase que resume a nossa cultura política de bastidor: “precisamos ver se a gente vai ainda atrás do jeitinho ou se vai só na Justiça”.

O áudio revela uma engenharia de influência que fez tremer as estruturas do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCESP):

No diálogo, o empresário menciona conversas com um “deputado” não identificado para tentar interceder junto ao conselheiro Dimas Ramalho, responsável por julgar os recursos da licitação travada.

E o requinte de bastidor: Emerson se gaba de ter uma reunião marcada na hora do almoço com o cunhado de Dimas Ramalho para tentar cavar uma agenda secreta na casa ou no gabinete do conselheiro: “Se com o deputado não der certo, você vai me levar para o seu cunhado?”.

Enquanto o prefeito e o presidente da Emdec viajam pelo Brasil vendendo transparência e governança em slides de PowerPoint, a realidade se mostra bem diferente nos bastidores.

O Ministério Público entrou no ralo das tarifas e subsídios

Enquanto os empresários e diretores se organizavam nos escritórios de Paulínia, o Ministério Público de São Paulo abriu outra frente de batalha devastadora para a prefeitura. Atendendo a uma representação formal da deputada federal Sâmia Bomfim e da vereadora Mariana Conti, o MP instaurou um inquérito civil para apurar o aumento real das tarifas de ônibus e a dinheirama dos subsídios pagos pela prefeitura.

Os números que os promotores colocaram sob a lupa justificam a azia do eleitor campineiro:

O Salto do Subsídio: O repasse de dinheiro público que a prefeitura joga direto no caixa das empresas de ônibus disparou de R$ 139 milhões para assustadores R$ 218 milhões.

Acima da Inflação: O reajuste aplicado na tarifa que sai do bolso do trabalhador foi de 5,26%, superando com folga a inflação do período, que fechou em 4,26%.

A prefeitura correu para soltar a nota padrão de que os índices buscam o “equilíbrio econômico-financeiro” por conta do diesel e dos insumos. Mas para o MP, a conta não fecha. Investigar por que o município está gastando R$ 218 milhões para subsidiar frotas sucateadas e linhas “zigue-zague”, ao mesmo tempo em que os vencedores da licitação operam na base da reunião secreta, é a tempestade perfeita sobre a gestão municipal.

A cidade clama por transparência real

O cenário da mobilidade em Campinas virou um caso de polícia generalizado. Temos o principal vereador da oposição emparedado por uma devassa de mandados de busca e apreensão de dinheiro vivo de uma ponta do esquema; temos o diretor financeiro da Emdec demitido por fazer reunião fora da agenda com a empresa vencedora; e temos os empresários de ônibus gravados cogitando usar o “jeitinho” para destravar 11 bilhões de reais nos tribunais de São Paulo.

Se a caixa preta do transporte de Campinas for aberta inteira pelos promotores do MP, o Gilberto vai ter que mudar a mesa da coluna definitivamente para o balcão da padaria, porque o estoque de café não vai dar conta do tamanho do estrago.

Dica do Gilberto: No próximo fórum de mobilidade urbana nacional, o prefeito e o presidente da Emdec podem sugerir um painel inédito e revolucionário: “Como gerenciar uma licitação bilionária dividida entre o Diário Oficial, a exoneração de diretores e o jeitinho de garagem”. O sucesso de público será garantido, mas a nota em Campinas continuará sendo de reprovação total.

Vou recolher os papéis e pedir mais uma água com gás. Porque o cheiro de queimado que vem do Palácio dos Jequitibás está de deixar qualquer um sem ar!