O Delírio europeu da mobilidade campineira

O Secretário Fernando de Caires nos convida a “imaginar” o futuro em texto publicado na ANTP (Associação Nacional dos Transportes Públicos). Ele quer que a gente vislumbre sair de Campinas e chegar na Barra Funda em uma hora. O Trem Intercidades (TIC) é um projeto fantástico do Governo do Estado e deve sair do papel, mas querer pegar carona no trilho alheio para dourar a pílula do nosso caos municipal é audácia demais.

Regeneração Urbana ou Ópera do Absurdo?

O texto é uma viagem turística: cita a estação Lyon Part-Dieu na França e St. Pancras em Londres como modelos de “regeneração urbana”. Ele diz que as estações devem ser “vetores de cidade”. Agora, vamos olhar para o nosso “vetor” local no entorno da futura estação: o que temos é um Centro decadente do qual os passageiros do trem vão querer passar longe assim que descerem do trem.

A “Base Institucional” que ninguém pode ver

A parte mais engraçada — se não fosse trágica — é o Secretário dizer que a recente licitação do transporte estabeleceu uma “base institucional importante” para o trem.

Aqui a gente precisa respirar fundo. Que base, Secretário? As planilhas de custo que a Emdec escondeu a sete chaves e agora aguarda o Ministério Público entrar com o primeiro pedido de liminar na Justiça?

Chamar um processo que está sob a sombra de investigações e silêncios de “governança moderna” é como pintar um articulado velho de azul metálico e dizer que ele virou um trem de alta velocidade.

O Trem é do Estado, mas o “puxadinho” virou municipal

O TIC tem tudo para ser algo positivo. O que a gente debocha é dessa tentativa de dizer que Campinas está “se preparando” com uma licitação capenga e um sistema que hoje vive do Efeito Cobertor Curto: tirando ônibus de uma linha para cobrir o buraco da outra enquanto a imprensa bate recorde de audiência filmando carro quebrado.

“O transporte público do futuro não será definido apenas pelo tipo de ônibus, mas pela inteligência do sistema…”

Pois é, Secretário, e a “inteligência” atual do nosso sistema é cobrar caro por um serviço que está na UTI. Se a “regeneração urbana” de Campinas for baseada na mesma precisão geológica dos nossos piscinões ou na transparência das nossas licitações, o passageiro que descer do trem em 2030 vai achar que caiu em um episódio perdido de Perdidos no Espaço.

O futuro é logo ali, mas Campinas ainda está presa no brejo da Praça da Ópera.