Dando continuidade à análise dos dados exclusivos obtidos pelo ODC via Lei de Acesso à Informação (LAI), este novo levantamento revela um dos maiores gargalos do transporte de Campinas: a convivência forçada — e ineficiente — entre as linhas convencionais “troncais” e o sistema BRT. Os números oficiais da bilhetagem mostram que o passageiro campineiro ainda é refém de um sistema híbrido que não cumpre o que promete, mantendo em circulação linhas que já deveriam ter sido extintas para dar lugar à modernidade.
O “fantasma” do Itajaí: a linha 212 resiste ao BRT
No Corredor Campo Grande, a linha 212 (Terminal Itajaí / Corredor Central) é o exemplo máximo da gestão de fachada. Teoricamente, ela deveria ter sido absorvida pelas linhas BRT20 (Terminal Campo Grande) e BRT25 (Terminal Satélite Íris). A realidade dos números, porém, é um tapa na face do planejamento urbano.
Em outubro de 2025, a linha 212 transportou 111.305 passageiros. Mesmo com a queda natural das férias, em fevereiro de 2026, ela ainda registrou quase 89 mil usuários. Enquanto isso, o BRT20, que deveria ser a solução definitiva, estacionou na casa dos 110 mil passageiros no mesmo período.
A manutenção da linha 212 se mostrou uma decisão errada, que deveria ter forçado a operadora a adaptar todos os carros para o BRT e tentar melhorar o intervalo. Mas, não. Acabou dividindo uma demanda que ainda se mostra muito grande, em momentos em que os BRTs falham.
Ouro Verde: Linha 131 “goleia” a operação do BRT
A situação é ainda mais dramática no Corredor Ouro Verde. A linha 131 (Terminal Vida Nova / Corredor Central) continua operando como um gigante que aniquila a eficiência do BRT. Os dados revelam que, em fevereiro de 2026, a linha 131 transportou sozinha 116.657 pessoas.
O volume é tão expressivo que supera a soma das duas principais linhas do corredor: BRT10 (Terminal Ouro Verde) e BRT11 (Terminal Vida Nova), que juntas transportaram apenas 93.881 passageiros no mesmo mês.
Essa “goleada” da linha comum sobre o BRT é o sintoma de uma operação “mambembe”. Com intervalos altos e uma frota que não transmite confiança, o passageiro do Ouro Verde foge do BRT e se aglomera na 131 para garantir que chegará ao trabalho –se chegar. É o dinheiro público sendo queimado em duas frentes: mantendo um sistema novo que não atrai o usuário e uma linha antiga que sobrecarrega o sistema viário.
Gestão que deixa o campineiro “maluco”
O sentimento nas paradas de ônibus é de revolta. O campineiro paga uma das tarifas mais caras do país para ver ônibus novos quebrando nas avenidas e linhas “zumbis” — que já deveriam ter sido extintas — salvando uma operação capenga.
A Emdec e a Secretaria de Transportes mantêm um sistema híbrido caro e ineficiente. Enquanto a propaganda oficial exalta as estações envidraçadas, a bilhetagem de janeiro e fevereiro de 2026 prova que a confiança do usuário está no modelo antigo, simplesmente porque o BRT não consegue cumprir horários e manter os carros rodando. Campinas vive o pior dos dois mundos: o custo do novo com a precariedade do velho, deixando o cidadão, literalmente, no meio do caminho.





