O senso comum sugere que grandes empresas, com seus ônibus articulados e frotas robustas, seriam as responsáveis pelo maior volume de passageiros em uma metrópole. No entanto, os dados consolidados entre outubro de 2025 e fevereiro de 2026 obtidos pelo ODC via Lei de Acesso à Informação (LAI) contam uma história diferente. Das três linhas que mais transportam pessoas em Campinas, todas são operadas por cooperativas. O segredo? O intervalo curto. Enquanto empresas deixam o usuário “no vácuo” por até 14 minutos, as cooperativas apostam na circulação constante.
O pódio das cooperativas
Fechando o pódio, a linha 133 (Vida Nova / Corredor Central) reafirma o domínio do setor alternativo. Mesmo com veículos de menor capacidade unitária que os do BRT, a 133 transportou quase 1 milhão de pessoas em cinco meses, operando com intervalos de 8 minutos.
O “vácuo” das empresas
O contraste com as linhas de empresas é gritante e explica a revolta de quem espera no ponto. A linha 371 (Estação Parque Prado / Shopping Dom Pedro), operada por concessionária, ocupa a quarta posição, mas sob um regime de incerteza: o intervalo oficial é de 13 minutos, mas o passageiro sabe que “quando passa” é lucro, entre quebras e faltas de carros.
A humilhação estatística é mais visível no embate direto pelo passageiro do Vida Nova:
- Linha 133 (Cooperativa): 8 minutos de intervalo | 981 mil passageiros totais.
- Linha 131 (Empresa): 13 minutos (quando passa) | 622 mil passageiros totais.
Mesmo servindo regiões similares, a cooperativa leva 350 mil pessoas a mais no período simplesmente porque está na rua. Enquanto a linha 131 da empresa falha na escala, a 133 faz mais viagens e, consequentemente, absorve a demanda que não pode esperar.
Mais viagens, menos espera
A análise dos dados de janeiro e fevereiro de 2026 deixa claro: o passageiro não quer saber quem opera a linha, ele quer o ônibus no ponto. Linhas como a 213 (Terminal Itajaí) e a 117 (DIC VI), ambas de empresas, castigam o usuário com esperas que variam de 11 a 14 minutos. Em contrapartida, linhas como a 135 (Jardim Filadélfia) e a 197 (Jardim Marisa), operadas por cooperativas com intervalos de 9 a 10 minutos, garantem o fluxo que as grandes concessionárias parecem ter desistido de atender.
A única exceção “surpreendente” entre as empresas é a linha 413 (Jardim São José), que consegue manter um intervalo de 8 minutos, figurando em quinto lugar no ranking. É a prova de que, quando a empresa quer operar com eficiência técnica, ela consegue —mas, em Campinas, isso tem sido a exceção, não a regra.
O ranking revela que o sistema de transporte de Campinas está invertido. As cooperativas, teoricamente “complementares”, tornaram-se o eixo principal de mobilidade por mérito da frequência. O modelo de ônibus gigantes das empresas, que passam de “mês em mês” e quebram com frequência, faliu diante da agilidade das linhas 249, 385 e 133. Para o trabalhador, pouco importa se o ônibus tem ar-condicionado ou é articulado se ele demora 15 minutos para aparecer; o que enche a catraca é o asfalto ocupado, e nisso, as cooperativas estão dando uma aula de logística básica às concessionárias.





