Uma megaoperação deflagrada na manhã desta quarta-feira (3) pela Polícia Civil de Campinas e pelo Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) colocou o vereador Vini Oliveira (Cidadania) no centro de uma profunda investigação criminal. A ação, realizada em conjunto com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e o Núcleo Especializado de Combate à Criminalidade Organizada e à Lavagem de Dinheiro (Neccold), cumpre 11 mandados de busca e apreensão — sendo 10 em Campinas e um em Paulínia. Entre os alvos estão residências, escritórios, empresas e o gabinete do parlamentar na Câmara Municipal. Empresários do setor de transportes também estão entre os investigados.
Respostas evasivas, “máfia do transporte” e o elo com a prefeitura
Após a repercussão das imagens, inicialmente reveladas em reportagem da TH+ Record, Vini Oliveira demorou quase 18 horas para se manifestar. Em suas redes sociais, afirmou que o conteúdo da pasta se tratava de pen drives com denúncias sobre a “máfia do transporte” que seriam levadas ao Ministério Público.
O episódio expõe as entranhas e os bastidores da questionada licitação de R$ 11 bilhões de Campinas. Dias antes de o escândalo estourar, o vereador vinha tentando constranger a cúpula da Emdec e focar seus ataques em obviedades sobre as atuais operadoras do sistema, agindo, segundo apontado pelo ODC, como uma espécie de “porta-voz” informal para moldar a opinião pública em favor do novo certame.
Paralelamente, o parlamentar manteve silêncio absoluto sobre as graves investigações de cartel que já miram as empresas vencedoras do leilão e as recentes decisões da Justiça do Trabalho que atingiram integrantes dos consórcios. Enquanto o caos na mobilidade é cobrado do prefeito Dário Saadi e de Vinicius Riverete, o silêncio da prefeitura e da Emdec diante do envolvimento do vereador com uma das empresas do certame aumenta as dúvidas sobre a lisura do processo.
Superdosagem de dipirona e internação sob suspeita
O desfecho do caso ganhou contornos dramáticos e altamente questionáveis no último fim de semana. Vini Oliveira publicou um vídeo no Instagram, gravado em um hotel, visivelmente alterado. Nas imagens, o parlamentar alegou que sua “vida corria risco” devido a ameaças da suposta máfia e afirmou estar tomando comprimidos de dipirona de forma alucinada — alegando já ter ingerido 10 cápsulas. Sob a perspectiva médica, uma superdosagem de dipirona pode resultar em intoxicação severa, provocando náuseas, vômitos, queda abrupta da pressão arterial, insuficiência renal e, em casos críticos, coma ou parada respiratória.
Na segunda-feira (1º), a assessoria do vereador publicou uma foto de Vini em uma cama de hospital, afirmando que ele estaria internado em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e impossibilitado de comparecer à Câmara. No entanto, a imagem gerou forte ceticismo: em uma UTI real, o paciente é imediatamente monitorado por múltiplos aparelhos de sinais vitais e oxigenação, elementos totalmente ausentes na foto divulgada, que mostrava até mesmo tomadas vazias na parede. O ODC também apurou que um segundo fator pode ter agravado a crise do parlamentar: ele vinha sendo pressionado nos bastidores devido a graves falas homofóbicas proferidas contra outro vereador da Casa.
Essa estratégia de “blindagem médica” não é inédita na carreira de Vini Oliveira, o mais jovem e segundo vereador mais votado da história de Campinas. Antes mesmo de assumir o mandato, ele enfrentou uma Comissão Processante (CP) por uma abordagem considerada abusiva a um funcionário da Rede Mário Gatti. Naquela ocasião, após ter a conduta gravada em vídeo, ele também alegou ter passado mal por vários dias para se esquivar das sessões — embora o processo tenha acabado arquivado e a gravação deletada por ordem judicial meses depois.
Câmara abre Comissão Processante por unanimidade
Apesar da alegada internação, a pressão política foi insustentável. Na mesma segunda-feira (1º), a Câmara Municipal de Campinas abriu, por unanimidade dos 29 vereadores presentes, uma Comissão Processante contra Vini Oliveira por suposta improbidade administrativa decorrente do episódio da “caixa preta” na empresa Smile.
A comissão já foi constituída e terá o vereador Paulo Haddad (PSD) como presidente, Otto Alejandro (PL) como relator e Dr. Yanko (PP) como terceiro membro. De acordo com o rito legal, os trabalhos funcionarão da seguinte forma:
- Notificação e Defesa Prévia: O presidente notificará Vini Oliveira, que terá o prazo de 10 dias para apresentar sua defesa prévia por escrito.
- Parecer Inicial: Após a entrega da defesa, a CP terá 5 dias para emitir um parecer opinando pelo prosseguimento ou pelo arquivamento da denúncia. Caso opte pelo arquivamento, a decisão precisará ser chancelada pelo plenário.
- Instrução e Prazos: Se a investigação prosseguir, haverá a fase de diligências, audiências e inquirição de testemunhas. A comissão terá o prazo total de 90 dias para apresentar o relatório final.
- Julgamento: Caso o relatório recomende a cassação do mandato, o parecer irá a plenário, sendo necessários os votos de pelo menos dois terços (22 dos 33 vereadores) para que Vini Oliveira perca o cargo.
A assessoria do vereador informou apenas que, por enquanto, não irá se manifestar. Com o avanço das investigações criminais e o início da Comissão Processante, as tentativas de manipulação de narrativa nas redes sociais parecem ter encontrado o seu limite na realidade dos fatos.





