A Prefeitura de Campinas deu mais um passo formal na questionada licitação do transporte público coletivo. Nesta terça-feira (19), foi publicada no Diário Oficial do Município a habilitação da Sancetur (Empresa Santa Cecília Turismo) para o Lote Sul e do Consórcio Grande Campinas para o Lote Norte — ambos classificados com as “menores propostas” no leilão realizado em março na B3. A publicação abre o prazo regulamentar de três dias úteis para recursos administrativos. No entanto, os bastidores institucionais revelam um cenário muito menos pacífico do que o tom burocrático do Executivo sugere.
O fantasma do cartel e a dança dos lances na B3
A suspeita que paira sobre o processo, e que já é alvo de apuração minuciosa do Ministério Público (MP) sob sigilo, envolve suposta formação de cartel e combinação prévia de preços entre as concorrentes, o que configuraria crime e grave lesão ao erário municipal.
Reportagens do ODC apontam que o comportamento das empresas durante o leilão na B3 — transmitido ao vivo pelo portal — acendeu o sinal de alerta de analistas e da sociedade civil. O desenho final da disputa gerou estranheza: as duas únicas participantes do certame saíram vencedoras de exatamente um lote cada, evitando um monopólio formal, mas com valores de tarifa técnica excessivamente próximos.
No Lote Norte, chamou a atenção o padrão de lances com deságios fixos e incomuns de R$ 0,08, sugerindo uma vitória induzida. Já no Lote Sul, a empresa vencedora deu apenas um lance tímido no lote vizinho, deixando o caminho livre para o outro consórcio triunfar, o que alimenta a tese de divisão prévia de mercado.
Diligências policiais e ramificações no interior
O cerco investigativo que começou no MP acabou compartilhando provas com o TCE-SP. A apuração é profunda e envolveu inclusive a Polícia Civil, que realizou visitas aos endereços declarados pelas empresas do consórcio vencedor.
As buscas por consistência documental e contábil estenderam-se a prefeituras do interior paulista onde essas empresas operam ou já operaram, como Marília, Assis, Catanduva e Santa Bárbara D’Oeste. Até mesmo contratos mantidos por essas empresas com a Secretaria de Educação da própria Prefeitura de Campinas entraram na mira das autoridades.
Pressão política vs. resposta estrutural
Enquanto a sociedade civil e os órgãos de fiscalização questionam a lisura do processo, a administração municipal demonstra pressa para dar andamento ao certame. Críticos e especialistas em mobilidade ouvidos pelo ODC alertam para a visão reducionista do Palácio dos Jequitibás, que aposta na simples troca de CNPJs e de operadoras após quase uma década de impasses como a solução definitiva para o sucateado sistema de transporte campineiro.
Com o avanço das investigações do Ministério Público e as exigências do TCE-SP, qualquer movimentação da Secretaria de Transportes para homologar o resultado passa a ser lida sob desconfiança. O desfecho da licitação, que deveria inaugurar uma nova era para a mobilidade urbana de Campinas, segue travado não apenas pelos prazos da Lei Federal nº 14.133/2021, mas pela necessidade urgente de esclarecer se o futuro do transporte da cidade foi decidido de forma livre ou em uma sala de reuniões combinada.





