Dando continuidade à análise dos dados exclusivos obtidos pelo ODC via Lei de Acesso à Informação (LAI), este novo levantamento revela um cenário ainda mais dramático no Corredor Ouro Verde. Os números oficiais da bilhetagem expõem uma distorção grave: uma linha de cooperativa, que deveria ter sido desativada com a chegada do BRT, não apenas sobrevive como transporta mais passageiros do que toda a estrutura tecnológica das empresas concessionárias no corredor.
A “goleada” da 133 sobre a tecnologia
Enquanto a prefeitura investe em estações supostamente modernas (mas que são quentes à beça e mal construídas) e ônibus articulados, o passageiro do Vida Nova continua espremido nos carros da linha 133. Em outubro de 2025, a linha registrou impressionantes 122.084 passagens. O vigor da demanda persistiu mesmo durante o período de férias: em fevereiro de 2026, a 133 transportou 100.247 passageiros.
Para entender o tamanho da humilhação operacional, basta somar a força de trabalho das principais linhas BRT do mesmo setor. No mês de fevereiro, as linhas BRT10 e BRT11 somaram, juntas, 93.881 passageiros. Ou seja: uma única linha de cooperativa transporta mais gente do que o sistema “inteligente” que deveria substituí-la.
Ouro Verde: Onde não sobra espaço para uma mosca
Os dados da LAI explicam visualmente o que o campineiro sente na pele todos os dias. Se a linha 133 carrega 100 mil pessoas em um mês de baixa demanda (fevereiro), no pico do período letivo a situação é de insalubridade. Relatos de usuários e a densidade dos números confirmam que, nos horários de pico, os veículos operam com lotação máxima — onde “não sobra espaço para uma mosca respirar”.
Essa superlotação crônica na 133 é o sintoma direto da operação “mambembe” das empresas nos corredores do BRT. Com intervalos irregulares e ônibus que quebram com frequência irritante, o passageiro abandona a plataforma do BRT e corre para a 133. O resultado é um sistema que opera no limite do perigo, com pessoas penduradas em veículos que já deveriam ter sido poupados desse esforço hercúleo.
A sobrevivência do caos
Por que a linha 133 não foi extinta? A resposta é simples e cruel: porque a prefeitura sabe que o BRT não aguenta o tranco. Se a linha de cooperativa for retirada hoje, o sistema Ouro Verde entra em colapso em menos de 24 horas.
A manutenção da 133 é a prova confessa de que o planejamento do transporte em Campinas faliu. A cidade vive uma ilusão de modernidade nas propagandas, mas no asfalto quente do Vida Nova, é a cooperativa quem evita o apagão total da mobilidade, às custas do sofrimento e do aperto de milhares de trabalhadores. O campineiro não está apenas maluco com as quebras; ele está exausto de pagar por um BRT de vitrine enquanto viaja enlatado em uma linha que a própria prefeitura diz que não deveria mais existir.





