O milagre da divisão dos pães (e das linhas): a política do “Tira de Lá e Põe Cá”

Para quem olha a postagem do vereador Otto Alejandro (PL), parece que a frota de Campinas ganhou cem ônibus novos e três terminais modernos. Mas quando a gente analisa os comunicados da própria Emdec — curiosamente carimbados com o logotipo oficial do político no rodapé, a gente entende a verdadeira engenharia por trás do anúncio: a velha e infalível Teoria do Cobertor Curto.

A dança das linhas no Parque Valença

O que o nobre vereador está vendendo como “conquista exclusiva” é, na verdade, um remendo cirúrgico para acalmar os ânimos da região do Campo Grande. Vamos aos fatos técnicos:

A Linha 202 encolheu: Para atender ao clamor do Parque Valença II por uma linha “exclusiva”, a Emdec simplesmente reduziu o trajeto da 202. Ela agora passa o rodo no Valença I e deixa de atender aquela comunidade. O pessoal do Valença II comemora o ônibus mais vazio, enquanto o vizinho do lado fica a ver navios.

A Linha 218 esticou: Para cobrir o buraco que a 202 deixou no Parque Valença I, a Emdec teve que ampliar o trajeto da 218. Mas adivinhem só? No meio desse malabarismo, a 218 deixou de atender a Estação BRS Concórdia.

Eu resumo: Para dar um doce para o Valença II, o sistema tirou um pedaço do Valença I e ainda confiscou a integração da 218 com a Estação Concórdia. É o legítimo “desvestir um santo para vestir o outro”. E o passageiro? Bom, esse continua batendo cabeça para entender onde é o novo ponto.

O carimbo do dono e o agradecimento ao presidente

O que mais chama a atenção não é nem o zigue-zague das linhas — afinal, depois da linha labirinto de 27 km que o G1 mostrou, a gente já se acostumou com o pior. O que impressiona é a privatização do comunicado público. Os informativos oficiais da prefeitura e da Emdec foram transformados em panfletos de propaganda política com a marca do vereador.

O parlamentar faz questão de agradecer publicamente ao presidente da Emdec, Vinicius Riverete, e a toda a sua equipe. Isso escancara como funciona a nossa mobilidade: as linhas não mudam por estudo de demanda, por contagem de passageiros ou por planejamento macro. Mudam na base do “quem pede mais alto no gabinete”. Se o vereador da base aliada precisa de um palanque no Parque Valença, a Emdec vai lá, passa a tesoura no itinerário, muda o ponto na quarta-feira e deixa o técnico da Vila Industrial desenhando seta no chão para validar a foto do Instagram.

A naquiagem geral de maio de 2026

Esse “sucesso” localizado tenta abafar o barulho do motor fundido do resto da cidade. Enquanto celebram a autonomia do Valença II no Instagram:

  • O TCE-SP continua bloqueando a licitação de 11 bilhões por suspeita de conluio entre os empresários de sempre.
  • As garagens continuam com dezenas de ônibus quebrados e faltando nas ruas.

A Linha do Voto

A alteração das linhas 202 e 218 mostra que a Emdec desistiu de gerir o sistema de forma global e agora atua como um pronto-socorro político. Se o bairro reclama e o vereador aperta, eles mudam o trajeto, criam mais um zigue-zague e carimbam a “vitória”. O passageiro do Valença II vai ter um ônibus mais direto a partir de quarta-feira? Vai. Mas o preço foi o isolamento de outro trecho e o fim de uma integração na Estação Concórdia.

Campinas não tem um plano viário; tem um balcão de negociações onde a moeda de troca é o tempo que o trabalhador passa esperando no ponto.

Dica do Gigi: Se você for usar a linha 218 a partir do dia 20, não esqueça de olhar bem o mapa novo. E se sentir falta da Estação Concórdia, não adianta reclamar no 118 da Emdec; é melhor mandar um direct direto no Instagram do vereador, porque parece que é lá que a central de tráfego de Campinas está operando agora.