“Denúncias” se intensificaram após visitas a garagem de vencedor do certame

Esta é a parte 1 de 1 da série de reportagens Escândalo da Licitação do Transporte
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O quebra-cabeça da licitação do transporte coletivo urbano de Campinas começou a se fechar, após as denúncias de corrupção envolvendo uma empresa de ônibus vencedora do certame.

A equipe do ODC vem denunciando há meses uma campanha difamatória no transporte público como parte de um possível projeto da própria municipalidade a fim de avalizar as empresas vencedoras do leilão realizado em março na B3, mesmo que cheias de problemas.

Não é de hoje que o sistema de transporte público de Campinas enfrenta sérios problemas, tanto de gestão quanto financeiros, mas a Emdec e sua cúpula preferiu o caminho mais “fácil”: espalhar uma onda difamatória proposital e fazer uma licitação mal feita, cheia de problemas, e colocar novas viações “na marra”.

Um dos maiores exemplos disso foi o “nano paese” (nano, pois é menor que micro) com meia dúzia de micro-ônibus das cooperativas para operar nas linhas das empresas VB e Padova, unicamente com o objetivo de “botar medo” nas mesmas, atitude completamente infantil de uma gestora de transporte, ainda mais vindo do poder público.

O transporte de Campinas está estagnado ao menos desde 2019, quando chegou a última grande remessa de novos ônibus para a cidade, trazidos pela empresa VB Transportes. Na ocasião foram renovados 125 ônibus de uma só vez, cerca de 10% de toda a frota operacional da época.

Desde então o transporte de Campinas nunca mais foi o mesmo, ainda mais depois da chegada da pandemia do novo coronavirus. A frota foi reduzida e o sistema começou a ser sucateado.

A Emdec, ao invés de tomar as rédeas da situação, passou a incentivar, de forma velada, “denúncias” de ônibus quebrados de forma sistemática. O ODC revelou que a própria prefeitura poderia estar alimentando influenciadores digitais da cidade com informações privilegiadas.

Muitas das “denúncias” de ônibus quebrados começaram a aparecer apenas neste ano, e se alastrou rapidamente por várias páginas, e curiosamente começou a aparecer frequentemente nas redes sociais do vereador Vini Oliveira, agora investigado pela Câmara por quebra de decoro parlamentar.

De acordo com levantamento feito pelo ODC nas redes públicas do vereador, as tais “denúncias” começaram a aparecer de forma mais incisiva depois de abril deste ano. Antes disso, as postagens eram aleatórias, misturados a vários outros assuntos.

Os vídeos de dentro da garagem da Smile Transportes mostram o vereador transitando nas instalações da empresa no dia 1 de abril, justamente quando começaram as “denúncias sobre a máfia do transporte”. Uma postagem feita na semana anterior a essa data mostra que o vereador levou documentos ao Ministério Público para “denunciar a máfia”.

O que mais chamou a atenção é que em nenhum momento o vereador supracitado fez qualquer questionamento sobre o processo licitatório, mesmo com todas as evidências que a Emdec tentou esconder. Inclusive em várias reuniões na Câmara, Vini questionou o presidente da Emdec e o secretário de transportes sobre coisas do atual contrato, que já são públicos e não trouxe nenhuma novidade à tal “denúncia”, enquanto a atual licitação passou totalmente “batida”.

A onda de “denúncias” sobre o atual contrato do transporte se intensificou na mesma época. Os números da própria Emdec mostra uma superlativização do caso.

O ODC teve acesso aos números de quebras de veículos de todas as atuais concessionárias desde o início do ano e comprovou a desproporção nas divulgações de informações entre influenciadores digitais e o vereador citado em denúncia.

No caso da empresa VB Transportes da área 1, o número de quebras de ônibus, em média, gira em torno de 20% do total da cidade, porém seus coletivos apareceram em 85% das postagens feitas por influenciadores.

Dias depois começaram a aparecer nas postagens os ônibus da Padova Coletivos, consorciada com a VB Transportes na área 3, inclusive insistentemente protagonista dos vídeos do vereador.

Já as empresas Itajaí e Onicamp, também com relativo número de quebras, quase não apareceram nos vídeos dos influenciadores. De acordo com levantamento do ODC, os coletivos quebrados das duas empresas representaram menos de 10% do total.

Com a desproporcionalidade, ficou evidente que a campanha era unicamente difamatória, e não com o objetivo de tentar melhorar o transporte, e tudo com a possível conivência de equipes da Emdec e da própria prefeitura.

Além disso, em análise das redes sociais do vereador Vini Oliveira, as invasões às garagens de ônibus para “mostrar a frota precária” aconteceram depois que o parlamentar esteve presente na sede da Smile Transportes, conforme mostram os vídeos de monitoramento da empresa.

A campanha difamatória do atual sistema de transporte parece cada vez mais ligada a interesses particulares do que ao objetivo de melhorar o sistema campineiro, deturpando a opinião pública para que a homologação das empresas vencedoras aconteça o mais rápido possível.

Outro dado que chamou a atenção, depois do escândalo revelado, é o modus operandi da Emdec em análises de empresas de ônibus. Em julho de 2023 a cooperativa Altercamp foi alvo de uma operação do Ministério Público em conjunto com a Polícia Civil em uma investigação sobre tráfico de drogas e crime organizado.

A Emdec, na época, se limitou a fazer uma investigação bastante fajuta acobertando os problemas da cooperativa e se limitou a dizer, na conclusão, que “agentes públicos não foram corrompidos em autos de vistoria de frota”. Não é de hoje que a vistoria da Emdec é uma verdadeira vergonha.

Muitos vistoriadores da Emdec fazem verdadeiras “vistas grossas” em veículos completamente precários, mas com autonomia total para o trabalho, esses agentes públicos não são investigados e tampouco chamados para prestar esclarecimentos.

A questão é: esses vistoriadores recebem ordens superiores para liberar veículos precários ou fazem isso por conta própria? A Emdec deve essa resposta para a população, que precisa do transporte diariamente em condições mínimas de uso.

A liberação de veículos precários pela própria Emdec aumenta o número de quebras nas ruas, alimentando redes sociais de influenciadores e de vereadores, e infla a população a pedir novas empresas, mesmo que investigadas. O ciclo, agora, se fecha.

Na matéria de amanhã, veja como se deu o leilão de preços do transporte público na B3, e o motivo pelo qual se levanta suspeitas sobre a lisura do processo.

Da Redação ODC.
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